quinta-feira, 14 de março de 2013

A Seringueira e os Pássaros





          Minha mãe nasceu e viveu boa parte da infância em um Seringal, no interior da Amazônia. 
          Era uma família numerosa e muito pobre. Seu pai trabalhava como seringueiro nas terras de um tal sr. André.
      Minha mãe disse que a vida era de muita labuta desde cedo. Porém, a infância tem suas particularidades e, sem entender a terrível trama histórica por trás de sua própria história, ela, menina, buscava seus próprios meios de encontrar momentos bons em seu dia a dia. 
           E era assim que havia a magia nas mãos de sua mãe que tecia, para ela e suas irmãs, adoráveis bonecas de pano. E era assim, que o banho de rio no fim da tarde se tornava uma divertida brincadeira.
               Mas, para ela - menina - nada era mais belo, nenhum momento era mais feliz do que aquele especial em que ela podia ir a um lugar mágico.
                Não muito perto de casa, a menina descobriu uma árvore frondosa: a árvore-causa de sua existência ali. 


            Mas aquela era uma seringueira especial. 
            Na margem do rio, ela se erguia, imponente e frondosa. Tão majestosa era que talvez, por isso mesmo, aves  e mais aves começaram a fazer dela sua morada.
           Minha mãe disse que, para ela, não havia momento mais feliz do que aquele: quando podia ir, à beira do rio, sentar-se, observar aquela bela obra de Deus e ouvir o coral mais fantástico que jamais esqueceu.
           O som dos cânticos daqueles incontáveis pássaros, adultos e filhotes, a faziam esquecer qualquer dor ou infortúnio. Todo o resto parecia pequeno diante daquele espetáculo divino.


( Muitos anos mais tarde, minha mãe leu em sua Bíblia - e entendeu:
                                "Todo ser que respira Louve ao Senhor" ).

            Enfim, foi assim, com os olhos embotados pelo tempo e o corpo abatido pelo Parkinson, que minha mãe compartilhou comigo a antiga lembrança. E foi assim que me falou da imensa tristeza que invadiu sua infantil e inocente alma.


                Seu pequeno paraíso foi destruído por alguém que ela sequer conheceu.
           Ali, espalhados pelo chão, os galhos e folhas que abrigaram  moradias felizes dos maravilhosos cantores da floresta misturaram-se às lágrimas tímidas de uma pequena menina.
               
               Não sei se o que ficou mais gravado no coração de minha mãe foi a visão daquela majestosa árvore e seus pássaros lindos que lhe traziam tanta alegria... Ou se foi a visão aterradora de seu santuário destruído.

                  Seja como for, me sinto privilegiada por ter sido comigo que ela compartilhou um pouco de seu mundo atemporal - além daquela cadeira de rodas de onde me contou sua história. De um tempo em que ela podia correr para chegar ao seu refúgio de felicidade e usufruir de um bem que dinheiro nenhum poderia jamais comprar.

Por: Adna Charife. (Rio Branco, AC. 14/03/2013).
  
    
          

Um comentário:

  1. Olá Adna!

    Vim agradecer sua visita no Blog Açaí na Panela e aproveitar pra conhecer teu blog =]

    Adorei!

    Deus te abençoe abundantemente
    Gde abraçoO

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