O Lugar da Pregação na Adoração
John Piper
Por que a Palavra de Deus é tão Proeminente na Adoração Coletiva da Igreja?
Nesse artigo a respeito de adoração, precisamos fazer essa pergunta.
Quase a metade do tempo de um culto é gasto na pregação da Palavra. Essa
é uma proporção notável e exige uma explicação.
Por que eu devo gastar tempo ensinado-os sobre a pregação, se nem
todos estão em um seminário preparando-se para serem pregadores? Há três
respostas simples. Primeira: vocês saberão melhor o que fazer com a
pregação, se entendem, de acordo com a Bíblia, porque a pregação ocupa
esse lugar no culto. Segunda: vocês serão capazes de avaliar se estão
realmente ouvindo o tipo correto de pregação, se compreendem, de
conformidade com a Bíblia, o que deve ser uma pregação correta.
Terceira: se vocês sabem o que é a verdadeira pregação, serão capazes de
discernir e escolher o tipo certo de pregador, quando tiverem de
convidar um pastor para ocupar o púlpito da igreja de vocês.
Conseqüentemente, haverá implicações importantíssimas para a vida e para
as famílias de vocês, bem como para o futuro de sua igreja — e de todas
as igrejas —, se o povo de Deus souber o que é a verdadeira pregação
bíblica e por que ela é tão proeminente na adoração coletiva.
Consideremos a pergunta: por que a Palavra de Deus é proeminente em nossa adoração coletiva?
Ora, essa pergunta, na realidade, está constituída de duas partes.
Primeira: por que a Palavra de Deus é tão proeminente? Segunda: por que
essa maneira de apresentar a Palavra possui tão grande relevância?
Qualquer crente poderia simplesmente ler a Bíblia por meia hora, ao
invés de ouvir a pregação da Palavra, e isto com certeza tornaria
proeminente a Palavra de Deus. Ou alguém poderia apenas dirigir uma
discussão sobre a Bíblia por meia hora. Ainda, outro poderia realizar
uma análise acadêmica sobre o vocabulário, a gramática e as
circunstâncias históricas da Bíblia. Portanto, não devemos apenas
perguntar por que a Palavra de Deus é tão proeminente, mas também por
que a pregação é tão relevante.
Deus se revela a Si mesmo como a Palavra e através da Palavra
A primeira razão é por que Deus decidiu revelar a Si mesmo como a
Palavra e através da Palavra. O apóstolo João disse: “No princípio era o
Verbo [a Palavra]” (João 1.1). No princípio, não era a música, nem o
teatro. Deus identifica seu Filho, que é Deus, como a Palavra. Isso é
tremendamente importante. “No princípio, era o Verbo [a Palavra].” O
Filho de Deus é a Palavra de Deus. Ele é a comunicação de Deus para o
mundo; Ele é a Palavra de Deus.
Deus não somente decidiu revelar a Si mesmo como a Palavra, mas
também através da Palavra. Considere nosso texto-base: “Toda a Escritura
é inspirada por Deus” (2 Tm 3.16). Isto significa que Deus resolveu
falar-nos, revelar a Si mesmo e interpretar suas realizações na História
por meio da inspiração de palavras escritas. Isso é exatamente o que o
vocábulo “escritura” significa — “escritos”. Toda a Escritura — todos os
escritos do cânon judaico-cristão — é inspirada, ou seja, soprada por
Deus; ou, conforme 2 Pedro 1.21 afirma: “Nunca jamais qualquer profecia
foi dada por vontade humana; entretanto, homens [santos] falaram da
parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo”. As Escrituras do Antigo e
do Novo Testamento são a revelação de Deus mesmo para nós.
A primeira resposta à pergunta por que a Palavra é tão proeminente na
adoração pública é esta: porque Deus revelou a Si mesmo como a Palavra e
através da Palavra. Se tem o alvo de ser uma comunhão espiritual com
Deus e causar uma reação amorosa e reverente para com Deus, então a
revelação de Deus mesmo tem de estar no âmago da adoração; e Ele
determinou tornar-se conhecido principalmente por meio de sua Palavra.
Deus realiza suas obras através de sua Palavra
Poderíamos dizer mais: a adoração é uma resposta à obra de Deus, e a
Palavra de Deus é o instrumento pelo qual Ele age no mundo. Esta foi a
maneira pela qual Ele agiu no princípio, quando criou o mundo por
intermédio de sua Palavra (Hb 11.3).
E esta tem sido a maneira pela qual, desde então, Deus realiza suas
grandes obras — através de sua Palavra. Por exemplo, sabemos que Jesus
simples- mente falou e as ondas se aquietaram (Mc 4.39), a febre
retirou-se (Lc 4.39), demônios foram expulsos (Mc 1.25), pecados foram
perdoados (Mc 2.10), cegos recuperaram sua visão (Lc 18.42) e mortos
foram ressuscitados (Lc 7.14). Deus agiu por intermédio de sua Palavra!
Também sabemos que Deus continua agindo no mundo por inter- médio de
sua Palavra. Considere novamente 2 Timóteo 3.16-17: “Toda a Escritura é
inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a
correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja
perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra”. Em outras
palavras, é por meio da Palavra que Deus realiza as boas obras de seu
povo. Essa é a razão por que Jesus disse que os homens verão nossas boas
obras e glorificarão ao nosso Pai, que está no céu (Mt 5.16). Deus age
por intermédio de sua Palavra, para realizar sua obra, através de seu
povo, no mundo.
Você pode ver isto freqüente-mente na Bíblia. Por exemplo, o Salmo 1
afirma: o homem que medita na Palavra de Deus, de dia e de noite, será
“como árvore plantada junto a correntes de águas, que, no devido tempo,
dá o seu fruto, e cuja folhagem não murcha; e tudo quanto ele faz será
bem sucedido” (v. 3). Assim, a Palavra de Deus produz fruto e torna a
pessoa bem sucedida na vontade dEle. Considere também Hebreus 4.12:
“Porque a palavra de Deus é viva, e eficaz, e mais cortante do que
qualquer espada de dois gumes, e penetra até ao ponto de dividir alma e
espírito, juntas e medulas, e é apta para discernir os pensamentos e
propósitos do coração”. A Palavra de Deus é o grande agente na grandiosa
obra de julgamento e convicção. Recorde, também, João 17.17, quando
Jesus orou ao Pai: “Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade”.
A grande obra de santificação, Deus a realiza por meio de sua Palavra. E
nossa listagem poderia continuar.
O fato mais importante é que adoração significa conhecer, admirar e
desfrutar de Deus, por intermédio de suas obras. Todas essas obras são
vistas em sua Palavra e realizadas por meio dela. Portanto, a Palavra de
Deus é proeminente na adoração.
Deus realiza o novo nascimento através de sua Palavra
Preciso mencionar outra razão por que a Palavra é tão proeminente na
adoração. A adoração depende completamente do milagre espiritual do novo
nascimento e da obra contínua de vivificação da fé. Esses milagres Deus
realiza por meio de sua Palavra. Por exemplo, citamos 1 Pedro 1.23:
“Fostes regenerados não de semente corruptível, mas de incorruptível,
mediante a palavra de Deus, a qual vive e é permanente”. O novo
nascimento é realizado por Deus através de sua Palavra. Isto significa
que a vida de que necessitamos para adorar a Deus com autenticidade
surge por intermédio da Palavra. Se não há vida espiritual, não há
adoração. Se não há pregação da Palavra, não há vida espiritual. E não
somente isto; o contínuo reavivar da fé, domingo após domingo, se
realiza por intermédio do ouvir a Palavra de Cristo (Rm 10.17) — não
apenas uma vez, e sim por repetidas vezes.
A Igreja Protestante colocou a Palavra de Deus no lugar de maior
proeminência na adoração coletiva, porque a adoração contempla e
desfruta de Deus mesmo; e Ele se revela como a Palavra, por intermédio
da Palavra. Em particular, Deus realiza sua obra no mundo através da sua
Palavra; e, por meio dela, outorga vida nova e aviva a fé. Sem a
Palavra de Deus, não haveria vida, nem fé, nem obra, nem revelação, nem
adoração. A Palavra significa para a adoração o que o oxigênio significa
para a respiração.
Por Que Pregação é tão Proeminente na Adoração Coletiva?
Nossa segunda pergunta deve ser: Visto que a Palavra de Deus deve
ser tão proeminente na adoração, por que esse ministério específico da
Palavra, chamado “pregação”, é tão importante?
Observe o que vem logo em seguida às palavras afirmativas de que toda
a Escritura é inspirada por Deus (2 Tm 3. 16.17). Paulo disse, com
notável solenidade e elevada seriedade: Conjuro- te, perante Deus e
Cristo Jesus, que há de julgar vivos e mortos, pela sua manifestação e
pelo seu reino: Prega a palavra” (4.1-2). É claro que para este jovem
ministro da Palavra (ver 2 Tm 2.15) a pregação tinha de ser uma
atividade proeminente. E o contexto do capítulo 3 (vv. 16-17) parece
transmitir a idéia de que a pregação não serve apenas para evangelizar
nas praças ou nas esquinas; ela serve também para os crentes que
necessitam de correção, repreensão, exortação e doutrina (conforme
afirma 2 Timóteo 4.2).
Portanto, poderíamos dizer: nós pregamos porque 2 Timóteo 4.2 afirma
que devemos fazê-lo. Gostaria de ir mais além e perguntar: Por que é tão
adequado, no plano de Deus, que a pregação seja proeminente na
adoração?
Os precedentes do Antigo e do Novo Testamento
Uma resposta é que existe precedentes bíblicos para esclarecer o
lugar das Escrituras na adoração. Por exemplo, Neemias 8.6-8 afirma:
“Esdras bendisse ao Senhor, o grande Deus; e todo o povo respondeu:
Amém! Amém! E, levantando as mãos, inclinaram-se e adoraram o Senhor,
com o rosto em terra. E… os levitas ensinavam o povo na Lei; e o povo
estava no seu lugar. Leram no livro, na Lei de Deus, claramente, dando
explicações, de maneira que entendessem o que se lia”. Não houve apenas a
leitura da Lei, houve também homens designados que davam “explicações,
de maneira que entendessem o que se lia”. Tudo isso aconteceu em um
contexto de louvor e de adoração ao Senhor.
No Novo Testamento, a sinagoga dos judeus era uma continuação desse
modelo. Em Lucas 4.16 e os versículos seguintes, vemos Jesus
dirigindo-se a Nazaré, entrando na sinagoga, no sábado, e lendo na
profecia de Isaías um texto que se referia à vinda dEle mesmo. Em
seguida, Jesus assentou-se e apresentou sua interpretação: “Hoje, se
cumpriu a Escritura que acabais de ouvir” (Lc 4.21). Este era o esquema
habitual praticado na sinagoga: a Palavra de Deus era lida,e, em
seguida, havia a sua interpretação e a sua aplicação.
Vemos isso também no livro de Atos dos Apóstolos. Conforme o relato
neotestamentário, Paulo e seus colegas missionários chegaram à Antioquia
da Pisídia e, “indo num sábado à sinagoga, assentaram-se. Depois da
leitura da lei e dos profetas, os chefes da sinagoga mandaram
dizer-lhes: Irmãos, se tendes alguma palavra de exortação para o povo,
dizei-a” (At 13.14-15). Paulo se levantou e pregou a Palavra (vv. 16 a
31).
Por conseguinte, a primeira razão por que a Palavra de Deus se tornou
central na igreja é esta: esse foi o padrão estabelecido no Antigo
Testamento e na sinagoga do Novo Testamento.
Os dois aspectos essenciais da adoração
Há duas razões que justificam, ainda mais profundamente, o
proeminente lugar da pregação na adoração. Essas duas razões estão
relacionadas aos aspectos essenciais da adoração: compreender a Deus e
deleitar-se nEle. Jonathan Edwards explicou o objetivo de Deus na
adoração, utilizando as seguintes palavras:
“Há duas maneiras pelas quais Deus glorifica a Si mesmo para com suas
criaturas: 1) por manifestar-se ao entendimento delas; 2) por
comunicar-se ao coração delas, quando elas se regozijam, se deleitam e
desfrutam das manifestações que Ele faz de Si mesmo. Deus é glorificado
não somente por sua glória ser contemplada, mas também por nos rego-
zijarmos nela. Quando aqueles que vêem a glória de Deus se deleitam
nela, Deus é mais glorificado do que se eles apenas a contemplassem.
Deste modo, a glória de Deus é recebida por toda a alma, ou seja, tanto
pelo entendimento quanto pelo coração”.
Portanto, há sempre duas partes na verdadeira adoração. Podemos
dizê-lo assim: existe o contemplar a Deus e existe o provar da pessoa de
Deus. Não podemos separá-las. Temos de vê-Lo, para que dEle pro- vemos.
E se não provarmos dEle, quando O contemplarmos, estaremos
insultando-O. Outra maneira de afirmar isso seria a seguinte: na
adoração existe sempre o entender com a mente e o sentir no coração. O
entender tem de ser sempre o alicerce do sentir, pois, do contrário, o
que teremos será apenas emocionalismo sem fundamento. O entendimento de
Deus que não resulta em sentimentos para com Deus torna-se em mero
intelectualismo e apatia. Esta é a razão por que a Bíblia, por um lado,
nos convida constantemente a pensar, a meditar, a ponderar, a lembrar;
e, por outro lado, ela nos convida a temer, a lamentar, a esperar, a nos
deleitarmos e nos alegrarmos. Essas duas atitudes estão na essência da
adoração.
A pregação é a forma que a Palavra de Deus assume na adoração, porque
a verdadeira pregação é o tipo de discurso que une, de maneira
consistente, esses dois aspectos da adoração, tanto na maneira como a
pregação é realizada quanto em seus objetivos. Quando Paulo disse a
Timóteo: “Prega a palavra”, o vocábulo grego traduzido pelo verbo pregar
é uma palavra que significava “ser o arauto”, “anunciar”, “proclamar”
(khêruxon). Não é apenas um vocábulo com a idéia de ensinar ou explicar.
Significava o que o arauto da cidade clamava: “Ouvi! Ouvi! Ouvi! O Rei
tem uma proclamação de boas-novas para todos os que prometerem
fidelidade ao seu domínio. Seja conhecido que a vida eterna será dada a
todos os que confiam e amam o Filho dEle”. Essa proclamação, eu a chamo
de “exultação”. A pregação é uma exultação pública a respeito da verdade
que ela anuncia. Não é algo desinteressante, frio ou neutro; é
apaixonante naquilo que ela anuncia.
No entanto, essa proclamação contém ensino. Perceberemos isso, se
considerarmos novamente 2 Timóteo 3.16 — a Escritura (que suscita a
pregação) é proveitosa para o “ensino”. E podemos ver isso quando
olhamos adiante e consideramos o restante de 2 Timóteo 4.2: “Prega a
palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta
com toda a longanimidade e doutrina”. Assim, verificamos que a pregação
é expositiva; ela aborda a Palavra de Deus. A verdadeira pregação não é
a expressão de opiniões de homens; é uma fiel exposição da Palavra de
Deus.
Exultação expositiva
Em uma frase, a pregação é uma “exultação expositiva”.
Em conclusão, dizemos: a razão por que a pregação é tão proeminente na adoração é por que esta não consiste apenas do entender, mas também do sentir. Adoração não é apenas contemplar a Deus; é também provar dEle. Não é apenas uma resposta de nossa mente; é também uma resposta do coração. Por isso, Deus ordenou que a forma que sua Palavra deve assumir na adoração não seja apenas uma explicação à mente, nem apenas de uma simulação ao coração. Pelo contrário, a pregação da Palavra tem por objetivo ensinar a mente e alcançar o coração; tem de mostrar a verdade de Cristo e provar a glória de dEle; tem de expor a Palavra de Deus e exultar no Deus da Palavra.
Em conclusão, dizemos: a razão por que a pregação é tão proeminente na adoração é por que esta não consiste apenas do entender, mas também do sentir. Adoração não é apenas contemplar a Deus; é também provar dEle. Não é apenas uma resposta de nossa mente; é também uma resposta do coração. Por isso, Deus ordenou que a forma que sua Palavra deve assumir na adoração não seja apenas uma explicação à mente, nem apenas de uma simulação ao coração. Pelo contrário, a pregação da Palavra tem por objetivo ensinar a mente e alcançar o coração; tem de mostrar a verdade de Cristo e provar a glória de dEle; tem de expor a Palavra de Deus e exultar no Deus da Palavra.
Isto é o que significa a pregação. Esta é a razão por que ela é tão
proeminente na adoração. A pregação não é uma simples obra de um homem; é
um dom e uma obra do Espírito Santo. Portanto, a pregação se realiza
melhor quando os crentes estão orando e se encontram espiritualmente
preparados para ela.
Orem por vocês mesmos e pelo(s) pastor(es) de sua igreja. Pro- curemos nos tornar pessoas que vivem e adoram no poder da Palavra de Deus — lida, memorizada, ensinada e pregada.
Orem por vocês mesmos e pelo(s) pastor(es) de sua igreja. Pro- curemos nos tornar pessoas que vivem e adoram no poder da Palavra de Deus — lida, memorizada, ensinada e pregada.
Tesouros na Terra
John Piper 10 de Março de 2011 - Vida Cristã
A essência da adoração é ter Jesus como infinitamente valioso, acima
de todas as coisas. As formas exteriores de adoração são atos que
mostram quanto valorizamos a Deus. Portanto, toda a vida tem o propósito
de ser adoração, pois Deus afirmou que, comendo, ou bebendo, ou fazendo
qualquer outra coisa – toda a vida –, devemos fazer tudo para mostrar
quão valiosa é a glória de Deus para nós.
Dinheiro e bens são uma grande parte de nossa vida; por isso, Deus
tenciona que eles sejam uma grande parte da adoração. A maneira como
adoramos com nosso dinheiro e bens é ganhá-los, e usá-los, e perdê-los
de um modo que mostre quanto valorizamos a Jesus, e não o dinheiro.
Lucas 12.33-34 está relacionado ao padrão de como adoramos com nosso
dinheiro (e, por implicação, está relacionado ao que fazemos com nosso
dinheiro na adoração coletiva, conforme veremos em seguida). “Vendei os
vossos bens e dai esmola; fazei para vós outros bolsas que não
desgastem, tesouro inextinguível nos céus, onde não chega o ladrão, nem a
traça consome, porque, onde está o vosso tesouro, aí estará também o
vosso coração.” Com base nesse texto, observe três ensinos importantes
sobre o dinheiro.
Primeiro, ter Jesus como nosso maior tesouro transmite um forte
impulso à simplicidade, e não à acumulação. Focalize por um momento as
palavras “vendei os vossos bens”, no versículo 33. Com quem Jesus estava
falando? O versículo 22 nos dá a resposta: “seus discípulos”. Ora, em
sua maioria, eles não eram pessoas ricas. Não tinham muitos bens. Mas,
apesar disso, Jesus disse: “Vendei os vossos bens”. Ele não disse
quantos bens eles deveriam vender.
Conforme mecionado em Lucas 18.22, Jesus disse a um jovem rico:
“Vende tudo o que tens, dá-o aos pobres e terás um tesouro nos céus;
depois, vem e segue-me” (v. 22). Nessa ocasião, Jesus instruiu o homem a
vender todas os suas posses.
Quando Zaqueu encontrou-se com Jesus, disse: “Senhor, resolvo dar aos
pobres a metade dos meus bens; e, se nalguma coisa tenho defraudado
alguém, restituo quatro vezes mais” (Lc 19.8). Portanto, ele deu 50% de
seus bens.
Atos 4.36-37 diz: “José, a quem os apóstolos deram o sobrenome de
Barnabé, que quer dizer filho de exortação, levita, natural de Chipre,
como tivesse um campo, vendendo-o, trouxe o preço e o depositou aos pés
dos apóstolos”. Isso significa que Barnabé vendeu pelo menos um campo.
A Bíblia não nos diz quantos bens devemos vender. Então, por que ela
nos diz que devemos vendê-los? Dar esmolas – usar o dinheiro para
mostrar amor àqueles que não têm o necessário para a vida e não têm o
evangelho (a necessidade para a vida eterna) – é tão importante que, se
não temos dinheiro à mão, devemos vender algo para que possamos dar.
Agora pense o que isso significa no contexto. Os discípulos não eram
pessoas ricas que tinham despesas além de suas condições, cujo dinheiro
estava preso em títulos ou investido em imóveis. Muitas dessas pessoas
têm, de fato, algumas economias. Mas Jesus não disse: “Usem um pouco do
dinheiro de vocês para dar esmolas”. Ele disse: “Vendam algo e dêem
esmolas”. Por quê? A suposição é que essas pessoa viviam tão próximas do
limite de suas condições, que, não tendo dinheiro para dar, precisavam
vender algo para que pudessem dar. Jesus queria que seu povo se movesse
em direção à simplicidade, e não à acumulação.
Qual é o ensino? O ensino é que existe na vida cristã um poderoso
impulso à simplicidade, e não à acumulação. Esse impulso resulta de
valorizarmos a Deus como Pastor, Pai e Rei mais do que valorizamos todos
os nossos bens.
E o impulso é poderoso por duas razões. Uma é que Jesus disse: “Quão
dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas
(literalmente, aqueles que têm coisas)!” (Lc 18.24). Em Lucas 8.14,
Jesus disse que as riquezas sufocam a Palavra de Deus. Contudo, queremos
entrar no reino de Deus mais do que desejamos ter coisas. E não
queremos que o evangelho seja sufocado em nossas vidas.
A outra razão é esta: queremos que a preciosidade de Deus seja
manifestada ao mundo. E Jesus nos diz que vender os bens e dar esmolas é
uma maneira de mostrar que Deus é real e precioso como Pastor, Pai e
Rei.
Portanto, o primeiro ensino de Lucas 12 é que confiar em Deus como
Pastor, Pai e Rei transmite um forte impulso à simplicidade, e não à
acumulação. E isso transforma a adoração que procede do íntimo do
coração em ações mais visíveis, para a glória de Deus.
Mas há uma segunda lição a aprendermos no versículo 33: o propósito
do dinheiro é maximizar nosso tesouro no céu, e não na terra. “Vendei os
vossos bens e dai esmola; fazei para vós outros bolsas que não
desgastem, tesouro inextinguível nos céus, onde não chega o ladrão, nem a
traça consome”. Qual é a conexão entre vender os bens, para atender à
necessidade de outros (primeira parte do versículo), e o acumular para
si mesmo tesouro no céu (final do versículo)?
A conexão parece ser esta: a maneira como você faz bolsas que não
desgastam e ajunta no céu um tesouro inextinguível é por vender seus
bens e atender às necessidades dos outros. Em outras palavras,
simplificar nossa vida na terra por causa do amor maximiza nosso gozo no
céu.
Não entenda de modo errado este ensino radical, pois isto é o que
Jesus pensa e fala em todo o tempo. Ter uma mentalidade do céu faz uma
diferença radicalmente amorosa neste mundo. As pessoas que estão mais
poderosamente convencidas de que o tesouro no céu é o que realmente
importa, e não as grandes possessões acumuladas neste mundo, são pessoas
que sonharão constantemente com maneiras de simplificar e servir,
simplificar e servir, simplificar e servir. Eles darão, e darão, e
darão. E, é claro, trabalharão, trabalharão, trabalharão, como Paulo
disse em Efésios 4.28: “Aquele que furtava não furte mais; antes,
trabalhe, fazendo com as próprias mãos o que é bom, para que tenha com
que acudir ao necessitado”.
A conexão com a adoração – na vida e nos domingos – é esta: Jesus nos
manda acumular tesouros no céu, ou seja, maximizar nosso gozo em Deus.
Ele diz que a maneira como fazemos isso é vendendo e simplificando, por
amor aos outros. Assim, ele motiva a simplicidade e o serviço pelo nosso
desejo de maximizar nosso gozo em Deus; e isso significa que todo o
nosso uso do dinheiro se torna uma manifestação de quanto nos deleitamos
em Deus, acima do dinheiro e de todas as coisas. E isso é adoração.
Mas há um terceiro e último ensino em Lucas 12: seu coração se move
em direção ao que você ama, e Deus quer que você se mova em direção a
ele. “Porque, onde está o vosso tesouro, aí estará também o vosso
coração” (v. 34). Essas palavras são apresentadas como a razão por que
devemos buscar tesouros inextinguíveis no céu. Se o seu tesouro estiver
no céu, onde Deus está, então ali estará o seu coração.
Ora, o que este versículo aparentemente simples nos diz? Entendo que a palavra tesouro significa
“o objeto amado”. E a palavra “coração” entendo que significa “o órgão
que ama”. Por isso, leio assim este versículo: “Onde estiver o objeto
que você ama, ali estará o órgão que ama”. Se o objeto de seu amor é
Deus, que está no céu, o seu coração estará com ele no céu. Você estará
com Deus. Todavia, se o objeto de seu amor é o dinheiro e as coisas da
terra, o seu coração estará na terra. Você estará na terra, separado de
Deus.
Isso é o que Jesus pretendia dizer quando falou: “Ninguém pode servir
a dois senhores; porque ou há de aborrecer-se de um e amar ao outro ou
se devotará a um e desprezará ao outro. Não podeis servir a Deus e às
riquezas” (Lc 16.13). Servir ao Deus dinheiro significa amar o dinheiro e
seguir todos os benefícios que ele pode oferecer. Nesse caso, o coração
segue o dinheiro. Mas servir a Deus implica amá-lo e buscar todos os
benefícios que ele pode dar. Nesse caso, o coração segue a Deus.
E isso é adoração: o coração está amando a Deus e buscando-o como o tesouro superior a todos os outros tesouros.
Em conclusão, vamos relacionar esses três ensinos de Lucas 12.33-34
com o ato de adoração coletiva que chamamos de “ofertório”. Este momento
e este ato serão adoração para você, não importando a quantidade
ofertada – desde a pequena moeda da viúva às grandes quantias dos
milionários –, se, ao dar, você disser, de todo o coração: “Primeiro, ó
Deus, por meio desse ato, eu confio em ti como meu generoso e bendito
Pastor, Pai e Rei, de modo que não temerei quando tiver menos dinheiro
para mim mesmo, ao suprir as necessidades dos outros. Segundo, ó Deus,
por meio desse ato, eu resisto a incrível pressão de nossa cultura para
acumularmos cada vez mais e identifico-me com o impulso para viver em
simplicidade por amor aos outros. Terceiro, por meio desse ato, eu
acumulo tesouros no céu, e não na terra, para que meu gozo em Deus seja
maximizado para sempre. E, quarto, com esta oferta eu declaro que meu
tesouro está no céu e meu coração segue a Deus”.
Traduzido por: Wellington Ferreira
Do original em inglês: Treasures on Earth. Revista Tabletalk, vol. 33, nº 8. Com permissão de Ligonier Ministries.
Nenhum comentário:
Postar um comentário